Congelo e fico fria. Vejo minha vida em cubos de gelo e eles nunca derretem. Gostaria de sentir meus dedos, mas eles congelaram. Fico parada esperando o frio passar e acabo sentindo uma dor aguda. Onde sinto? Não sei mais. Dói tanto que não dá pra saber de onde vem e onde para; ela apenas me devasta, me encharca; me encharca como uma chuvarada que ninguém espera ao sair de casa sem guarda-chuva. O vento corre tanto que me seca, mas o frio é mais rápido; a água me encharca de novo. Estou tremendo. Quero um agasalho, mas não tenho aquele que está na loja do outro lado da rua. Comprei um sapato no lugar dele. Prefiro o sapato ao agasalho. Não ia suportar meus pés molhadas e enrugados. Quero-os aquecidos enquanto o resto do meu corpo treme em busca de calor. Meus dentes batem uns nos outros. Parece música. Parem o maestro! Ele está bravo e grita como um trovão. Eu não grito. Apenas respiro e o que expiro sai como fumaça. Preciso de um balde. Começou a chover e eu nem percebi. Estava distraída vendo a poça se formando em mim. Droga! A poça molhou os meus pés! Ah, o agasalho...