Como os livros me salvaram

Algumas coisas me salvaram nessa trajetória de vida, mas decidi falar de uma pequena parte desse enorme quebra cabeças de histórias. E é nessa pequena peça desse quebra cabeças que os livros me salvam.
Eu lembro bem quando eu aprendi a ler, mas lembro mais ainda como eu me sentia antes de conseguir fazer isso. A primeira vez que eu abri um gibi eu fiquei maravilhada com aquelas imagens cheias de balões que contavam histórias, mas frustrada por não entender os diálogos ali escritos. Aquelas lindas figuras que ilustravam a história de animaizinhos no meio da floresta me encantavam e eu queria saber o que eles estavam falando uns aos outros. Certa vez, com um pouco mais de um metro de altura, na barra saia da minha mãe, resolvi pedir para que ela lesse para mim; e com o rosto triste e cabisbaixo ela me disse:
- Minha filha, eu não sei ler...
Infelizmente, minha mãe teve uma infância difícil e acabou não indo a escola. Com isso, não tinha ninguém que pudesse ler para mim e a partir daí meu interesse por aprender a ler aumentou ainda mais. Todos os dias eu folheava os gibis esperando que como num passe de mágica, em algum momento eu conseguisse juntar as letras e entender as palavras. Isso não aconteceu dessa forma, mas com alguns meses na escola, juntando uma sílaba aqui e outra ali, eu aprendi a ler. E muito rápido, por sinal! Mas, vamos a parte em que os livros me salvam?
Ainda na infância, comecei a viver um contexto de vida que para qualquer ser humano seria difícil, mas para uma criança, foi devastador. Até hoje eu não conseguia nomear o que eu passei, até que alguém me disse indiretamente que o que eu sofria era abuso. Este verbo significa fazer um uso incorreto, excessivo, injusto, impróprio ou indevido de algo ou de alguém e no contexto desse verbo eu vivi por muitos anos. Além de todos os detalhes que prefiro não expor, eu vivia sob constante estado de terror e não tinha amigos nenhum; mal podia me aproximar afetivamente e muitas vezes fisicamente de pessoas que eu amava, o que tornava tudo mais difícil de suportar. Como uma boa criança, eu me refugiava na arma mais poderosa que uma criança pode ter: a imaginação. Mas até para uma criança, a imaginação precisa de combustível para fluir e como uma criança que vivia em meio a profundos e diversos tormentos, eu posso dizer que a angústia e a dor que eu sentia acabavam sendo mais fortes e eu parei de imaginar. Para quem tem fé, vai acreditar que Deus foi tão bondoso comigo, que me deu uma rota para me aliviar do meu sofrimento e o nome dessa rota foi "a generosidade de alguém". E o que esse alguém tem a ver com a história em que os livros me salvam?

Um dia, meu pai e eu estávamos na rua quando uma mulher nos abordou e nos disse que havia muitos livros na sua casa e que estava doando todos eles. Em sua grande maioria, livros de literatura infantil. Meu pai aceitou e se prontificou a buscar os livros que ela tinha pra doar. Ele voltou com um grande saco plástico que carregava dezenas de livros. Fiquei muito animada. Aquilo era algo novo e eu queria descobrir esse universo tão mágico da leitura. Eu só não imaginava o quão poderoso isso seria para mim. Em muitos momentos sozinha, eu lia e relia livros que definitivamente me transportavam da minha cruel realidade para um mundo tão lindo e mágico de histórias que me faziam naquele curto momento de leitura parar de sentir a constante dor que acompanhava a minha alma, para sentir alívio e alegria. Muitas vezes, eu esquecia quem eu era para apenas poder ser o personagem que vivia uma história que eu queria viver. E lendo, eu vivia. Uma, princesa, uma rainha, uma garotinha cheia de amigos e uma fada que tinha ideias. "A fada que tinha ideias" havia se tornado o meu livro favorito e muitas e mutias vezes eu o lia pensando em como aquela fada era corajosa e inteligente da maneira como eu queria ser. Tudo era mais leve e divertido no mundo dessa fada. Os livros eram o meu pequeno refúgio; me tornaram mais forte, mais inteligente e me deram uma oportunidade de crescer. A proximidade com os livros, me fez me destacar na escola e por essa razão muitos caminhos lindos foram abertos para mim. Eu cresci tendo a escola como o melhor lugar do mundo e a biblioteca era onde eu passava grande parte do meu tempo. 
Não posso dizer que os livros foram os meus principais heróis. Eu tenho muitos outros heróis na vida. Porém, dentro da minha longa história formada por milhares de peças de quebra cabeças, os livros foram uma das pequenas peças que me salvaram. Acredito que todo autor de livro, ou até mesmo quem nunca escreveu um livro, mas escreve, deve saber que isso pode salvar alguém. Gosto de escrever pensando nisso. Quando eu escrevo, eu penso naquela garotinha de 8 anos de idade, que viu na história escrita por um autor, um encontro com a paz. Eu escrevo pra ela.
SHARE:
© Borboletra