Teias

Quem dera eu fosse uma pequena garota pedalando uma bicicleta cheia de flores no bagageiro numa   dessas cenas que a gente vê na França. Mas, não. Eu sou uma mulher que escorrega no gelo frio e congelante e cai cortando a mão numa pedra pontiaguda que estava no chão. Hoje definitivamente não é o melhor dia para se acreditar em dias bons, mas consegui por um instante ao ver uma criança olhando pra mim distante, parada, com olhos pequenos, mas cheios de intrigas. Limpei a mão num pedaço de papel que carrego na bolsa pra limpar a maquiagem e ao levantar os olhos cá está ela; em minha frente; à um passo do "oi". Mas, não foi essa a palavra que ela me disse.
- Minha mãe disse que algumas pessoas tem um coração tecido de teias de aranhas.
Aquilo me assustou. Imagine, uma criança dizer isso à alguém que não conhece. "Coração feito por teias de aranha" me soa como algo, no mínimo, assustador. Virei o rosto para minha mão para tentar estancar um pouco do sangue que corria.
- Você já viu? Disse a garotinha na tentativa incessante de conversar sobre aranhas comigo.
- Vi o quê? Respondi ainda olhando para o sangue escorrendo das minhas mãos para o gelo.
- Teias de aranha! Nunca parou para vê-las de perto?
- Não. Só as vejo no teto de casa e isso não dura muito. Logo pego uma vassoura e limpo tudo.
Ela agiu indiferente à minha resposta, mas continuou.
- Você sabia que quanto mais força a aranha utiliza para tecer a sua teia, mais forte essa teia fica?
- Como assim garota? Força numa teia? Eu consigo desfazê-las facilmente com as mãos!
- É verdade...
Ela por um instante parou e ficou olhando o chão com as marcas dos pingos vermelhos que antes haviam caído das minhas mãos, mas foi só o tempo de pensar numa resposta que já estava pronta em sua cabeça.
- A teia da aranha é muito flexível e de uma força enorme. Consegue resistir a grandes tempestades. É engraçado algo ser tão frágil e tão forte ao mesmo tempo não é? Disse ela olhando para mim.
- Sim. Falei olhando o relógio percebendo que estava atrasada. Olhei para a garota e sorri indicando o final da conversa. Peguei o que restou de mim daquela queda e saí andando em direção ao ponto do táxi. Dado muitos passos ouvi uma voz bem longe e imatura que dizia:
- Não deixe de tecer o seu coração...



SHARE:
© Borboletra