O último momento, um eterno.

Deitada na sua cama com lençóis branquinhos e uma almofada aconchegante a abraçar sua cabeça. Seus cabelos tão brancos revelam tantos dias, segredos, momentos; tantas histórias. Histórias em que boa parte estive eu, presente. Segurando sua mão firme, fiquei a olhar para ela que olhava para mim com os olhos cansados, mas leves.
- Vó, quer alguma coisa? Tá precisando de alguma coisa? Se sentir algo, me diz que eu chamo a enfermeira.
- Não, meu querido... Estou bem. Disse ela com a voz que já não tinha tanto vigor.
Eu lembro de quando ela me colocava no colo e dizia que eu fosse um bom menino. Em seguida me dava algumas moedas e eu ia para a barraquinha mais próxima pra comprar alguns pirulitos.
Uma vez, no meu quarto jogando vídeo game, a ouvi falar bem baixinho do seu quarto:
- Deus, cuida do meu menino... cuida do meu netinho. Que ele seja feliz.
Antes, as mãos dela cozinhavam aquela comida que só vó sabe, costuravam minha calças rasgadas e pintavam verdadeiras obras de arte.. Hoje ela segura minha mão quente que aquece a mão fria dela.
Tento esconder o meu olhar, porque ela sabe decifrar, mas é tarde. Ela olha pra mim comprimindo os olhos.
- O que você tem, querido? Pergunta.
- Nada, vó. Tá tudo bem.
- Eu sei que não...
Ela me olha com ternura, tentando trazer conforto. Tento segurar o fôlego na tentativa de não deixar rolar uma lágrima, mas as lágrimas são como energia que se conectam com os sentimentos e nesse momento há puro sentimento. Com a mão trêmula ela acaricia o meu rosto dissipando as lágrimas que caem.
- Te amo, vó. Te amo demais!
- Ela sorri.
Me inclino e beijo sua testa e aí sinto. Sinto que não consigo sentir mais. Um último suspiro. Volto, olho e vejo o sorriso cravado no seu rosto e os olhos fechados.

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© Borboletra