Escreve dores

Acordei altiva, alegre e motivada para enfrentar os desafios que o hoje me traz. Tomei banho ao som de uma playlist que eu criei para isso e em seguida fui me vestir, tomar café - bem rápido, pois tempo é ouro - e saí. O mesmo caminho de sempre, na mesma hora e as pessoas que já estou habituada a ver sempre nas mesmas partes do caminho. 
Há poucos metros a minha frente, estava a garota de aparentemente 20 anos, a qual sempre vejo quase todas as manhãs cercada das mesmas pessoas e as vezes só. É uma linda mulher, com jeito meigo e misterioso, que as vezes ri lindamente nas conversas em grupos com seus amigos e as vezes anda com olhar triste quando está só. Enquanto eu caminhava observando as coisas ao redor, percebi que algo caia de sua bolsa e gritei para ver se ela me ouvia, mas a única coisa que fiz, foi atrair a atenção de pessoas próximas a mim com olhares de interrogação ao meu respeito. Corri lentamente - pois é difícil correr rapidamente de salto - para tentar alcançar a menina e lhe avisar do seu objeto perdido, mas só consegui alcançar o objeto mesmo. Era um pedaço de papel e nele havia um texto. Percebi que se tratava de uma carta ao ver que tinha destinatário. Não apenas um, mais dois. Eu não costumo xeretar nas coisas pessoais das outras pessoas, mas eu não me contive ao ler aquela se tratando de quem eram os destinatários. Aquela menina havia escrito aquela carta para o mundo e para morte.
"Querido Mundo e Morte,
É preciso ter muita coragem pra morrer. Hoje, parei pra pensar mais uma vez no suicídio. Não sei se eu tenho a coragem de fazê-lo, mas sempre que sinto o que se sente quando algo não vai muito bem dentro de mim (e consequentemente fora também), eu penso que isso seria uma opção se eu tivesse a coragem de o fazer. Por muitas vezes me senti e me chamei de fraca por isso. "Só uma pessoa fraca cometeria tamanho ato contra sua própria vida!" Mas, não! Não acho que seja uma fraqueza. É preciso ter força pra ter esse ato de coragem e cá estou eu, enaltecendo isso? Me sinto envergonhada... 
Não posso me cobrar o que sentir. Até porque, alguém como eu, sente demais. E sente demais o que é perigoso de se sentir. 
Eu queria dizer que o suicida provavelmente já disse o que iria fazer. Em poucas palavras ou até mesmo em letras grandes. Mas, muita gente não quer ouvir, ou se ouve, não crê. Isso é uma pena... as vezes só um abraço longo, sem outras distrações poderia ter evitado o efeito. Pelo menos por mais um momento. Quantos abraços seriam necessários para adiar algo tão trágico? 
Não é uma regra. Talvez, um abraço não signifique nada comparado ao dano que se tem na nossa cabeça. E o que mais fazer? Cada um tem sua receita, mas nenhum desses precisou usá-las. É difícil oferecer coisas para quem não mais se interesse em nada. É difícil dizer lindas palavras quando quem as ouve está com a alma apagada. É difícil estar presente com alguém que não entende a própria presença no universo. E qual seria a solução? Que mal terrível é esse que se adapta a qualquer situação? Como vencê-lo? Ou melhor: Como ajudar alguém a vencê-lo? Eu não sei a resposta... Mas ela começa com entender. Sem julgar, sem esperar grandes passos, sem achar caminhos óbvios que todo mundo já falou. E o mais importante: seja gentil. E pra isso você precisa ser forte. Porque só alguém forte consegue ser gentil com quem não quer viver."
Eu estava atônita e desesperada. Tirei os sapatos e corri como se minha vida dependesse disso. Uma vida dependia pelo que eu havia entendido no final. Eu já não conseguia vê-la no meio das pessoas; olhava para todas as direções. Tentava lembrar de possíveis lugares onde eu já a havia encontrado, ia em todos os que lembrava e nada. Tentei achá-la de todas as formas, mas nada me levava a ela. O dia foi terrível. Não parava de pensar nela e naquela carta. Quase não dormi desejando vê-la no dia seguinte. Quando deu a hora, saí de casa na esperança de encontrá-la como sempre no meio do caminho e ela não apareceu. No quinto dia, eu já sabia. Sabia que era tarde demais. No final do dia voltei pra casa sem esperança alguma e decidi que era hora de parar de procurá-la no caminho. 
Mesmo tendo aceitado essa terrível ideia, eu ainda olhava ao redor esperando achá-la, mas sempre uma frustração.
Um dia parei em frente à uma biblioteca próxima para olhar os livros que ficavam na vitrine e e percebi que havia uma grande quantidade de pessoas lá dentro. Muitas saíam e entravam num fluxo enorme e algumas delas com o mesmo livro na mão. Resolvi entrar para ver do que se tratava e constatei que era o lançamento de um livro intitulado como "As flores que a morte recebeu". "Que título curioso!" Pensei. Fui andando em direção à uma fila que tinha e percebi que se tratava de uma fila para autógrafos. Chegando mais próximo, percebi uma figura familiar; quando reconheci, fiquei em estado de choque. Era a menina, da carta perdida que eu achei não conseguir salvar. Ela estava lá, sentada, com um lindo sorriso e brilho nos olhos recebendo as pessoas e seus livros. Me aproximei ao ponto de estar parada em sua frente segurando um livro numa mão e a carta na outra. Quando vi por mim, estava aos prantos sem entender muito bem o porquê. Mas, uma grande onda de alívio cobria meu coração nesse momento e eu só conseguia chorar. Ela levantou-se e me abraçou com profundidade.
- Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem...
Entreguei-a a carta e ela surpresa olhou para mim sem entender como aquilo estaria comigo.
- Eu achei há alguns dias atrás, tentei achar você, te procurei por toda parte, achei que estivesse morta. Achei que você tinha...
- Se matado? Eu tentei, há alguns anos atrás dias antes de escrever essa carta, mas hoje eu estou aqui e bem. Encontrei ajuda, encontrei a cura e escrevi sobre isso.
- Eu não imaginava! Desculpe todo esse show de choro, todo esse transtorno... é que eu sou sensível demais.
Ela sorriu carinhosamente pegando o livro que estava na minha mão, escreveu algo nele e me devolveu.
- É por minha conta! Um presente meu! Obrigada por ter se importado.
Dei-a um outro abraço agradecendo ao presente e a deixei para continuar recebendo as outras pessoas que a aguardavam.
Quando abri o livro para ver o que havia escrito, vi umas letras rabiscadas que diziam:
"Que eu possa ser sensível demais, porque só quem é sensível demais consegue ouvir um grito engasgado, ver um coração doente e sentir a dor fora do corpo da gente."
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© Borboletra