Meu nome é ninguém


Me tiraram os sorrisos de esperança. Eu, uma criança.
Meus brinquedos eram pedir esmola nos sinais; minha escola eram as drogas que aprendi a usar.
Eu tentava ser feliz transformando o pouco do que tinha em algo mágico. Mas as ruas me disseram que mágica não existe pra quem não existe.
Eu chorei por me baterem forte até sangrar, eu sofri com as mãos malvadas que percorriam o meu corpo; eu gritei quando tentei fazer alguém me escutar. E ninguém me escutou.
Passeava pelas ruas da cidade e olhava para cada rosto que passava por mim. Embora eu fosse diferente, ninguém se importava comigo. Me olhavam com desprezo e com duas moedas de cinco centavos se desfaziam de qualquer remorso que podiam sentir no fim do dia.
As vezes eu tinha vontade de gritar: "Eu quero ser uma criança de verdade!".
Não sei o que é pedir presente ao Papai Noel e muito menos sei o que é ter um pai. Não sei de que cor é o ovo da páscoa, nem o porque de criança só gostar de guloseimas. Eu comi lixo.
Eu não tenho cor e o que não tem cor é transparente.
Eu não tenho sorriso e o que não tem sorriso só chora.
Eu não tenho mãe e o que não tem mãe não tem um colo pra se aquecer.
Eu não tenho mãos e o que não tem mãos não recebe nada.
Eu não tenho rosto e o que não tem rosto não é reconhecido.
Eu não tenho nome e o que não tem nome não existe.
Quem eu sou? Aquela criança que está nas ruas, aquela que dorme na calçada e sente seus pés molhados da chuva que cai. Eu sou aquela criança que muitos vêem e pensam que é apenas algo a mais pra se ter pena, eu sou o que não tem lar, roupa, comida, amor... Que não tem alguém como você e que não tem alguém como você tem.
Enquanto fico sem nome, sem rosto, sem mãos, sem sorriso, sem mãe, sem cor e sem nome eufico nas ruas, nas calçadas, nas portas dos restaurantes esperando alguém que me doe o amor que eu não conheço. E se ninguém chegar e vou continuar sendo o "palhacinho" que fica nos sinais fazendo truques a troco de trocos e fazendo as pessoas sorrirem. Porque o sorriso eu só conheço no rosto dos outros.


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© Borboletra