Enquanto há fôlego

Sentindo um frio na garganta, fruto do ar gelado que passa quando ela respira engolindo o fôlego; ela pensa que não tem mais jeito pra ela e que o fim está próximo de se apoderar dos seus anseios e dos segredos intimamente secretos, que brotam lindos desejos e outros nem tão lindos assim. "Já é tarde pra mim!" pensou. "Será tarde?". Ela refuta os próprios pensamentos. Criou um pouco de coragem, abriu um vinho, pôs numa taça e deu o primeiro gole. Enquanto o sabor alcoólico descia goela abaixo como se estivesse regando o corpo por dentro e aquecendo a alma fria, ela pensa mais uma vez. Mas, dessa vez pensa em risadas desdentadas, pensa em olhos, em crianças correndo pela casa, pensa em poeiras benignas e em beijos perdidos. Sofreu um pouco por pensar demais. No segundo gole, abriu os olhos para se ver. Foi na frente do espelho e viu um corpo. 
- Já te odiei tanto... Disse olhando para o figura esguia que aparecia. Lembrou de dias que nem conseguia se enxergar. Não tinha coragem de olhar para as suas marcas sem sentir pena, raiva e angústia. Agora, as olhava com pelo menos indiferença. Talvez fosse um pouco de amor próprio. 
Voltou para onde estava outrora, com a taça na mão deu um profundo suspiro. No terceiro gole, começou  cantar baixinho um música que ela acabara de criar. Respirando o ar gelado do inverno, de repente deu-lhe um estalo na mente e seguido de um quarto gole pensou: "Enquanto há fôlego, não é tarde!" Colocou a taça quase sem vinho na mesa, vestiu uma roupa que a fazia se sentir bem e saiu. Saiu pra viver.
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© Borboletra