- Compreendo que você está querendo acabar com tudo, mas eu te amo...
- Não dá mais... Fala ela, trêmula, sem conseguir olhar nos olhos dele.
- Você é tudo pra mim Maria! Vamos recomeçar! Toma! Te trouxe flores...
- Por favor Eduardo, acabou!
Nesse momento, ele para olhando fixamente para ela que segura uma explosão de choro dentro de si e fica parada no mesmo lugar, sem muita reação; como um bicho acuado que tem medo de se mover. Ele chora. Respira fundo mais um vez e diz:
- Você não pode acabar comigo assim... Não te fiz nada! Nada! Você nem me merece e eu estou aqui!
Ela fica muda, como se uma voz dentro de si a dissesse "Não fala nada!". Não olha pra ele, como se o coração dissesse que iria explodir se ela o fizesse.
- OLHA PRA MIM MARIA! EU TÔ FALANDO COM VOCÊ!
- Por favor, Eduardo...
- Maria, eu te juro, as coisas vão ficar melhores... Nós podemos ser felizes juntos! Confia em mim!?
Nesse momento, ele toca o rosto dela com um carinho afetuoso, como quem quer afagar a dor e fazer curar o que está ferido. Os ombros dela dão um leve pulo enquanto a cabeça dela quase entra pra dentro do corpo e ela tenta se esquivar enquanto ele a abraça segurando-a fortemente em seu peito.
- Não vamos mais brigar... Fala ele baixinho.
- Você vai ser muito feliz comigo, você vai ver... Você só precisa colaborar mais, né?
- Como assim, Eduardo?
- Ué, você sempre cria um novo problema e você me provoca! Se você fizer mais o que eu digo, a gente não vai mais brigar. Vem cá! Vamos pra casa, vamos? Ele pega na mão dela e começa a caminhar a levando em direção ao carro que está parado na próxima rua. Enquanto caminham, ela pensa, mas antes de pensar, ela sente. Ela sente um dor, uma agonia; sente que as entranhas estão sendo corroídas pelo ácido mais forte que já inventaram. Aquela vontade explosiva de chorar dobra o tamanho e dessa vez ela produz dentro de si uma grande força pra conter as lágrimas que borbulham nas pálpebras. Em seguida pensou, lembrou. Viu várias palavras enviadas como tesouras cortando as suas roupas porque elas não eram ideais; as frases de silêncio que ela fazia quando ela ouvia um "Cala a boca!" e um "Você não consegue viver sem mim, porque tudo o que você tem sou eu que te dou e você não é nada sozinha... Ninguém vai te querer como eu." Sentiu uma dor no olho esquerdo e lembrou do primeiro soco. Do segundo, do terceiro; de todos. Olhou para o braço que tinha a mão dele na dela e viu uma figura roxa. Outra figura roxa na perna esquerda e outra figura mais rocha na altura do estômago. Essa ela não podia ver, mas podia sentir e sentia muito porque era recente. Lembrou de todas as flores dos dias seguintes, e de todas as palavras carinhosas junto com um pedido de desculpas que vinham acompanhados de palavras acusativas, num tom disfarçado, encoberto e maquiado com rosas. Em toda a sua história nunca tinha se sentido tão pequena, tão suja, imoral, e imprestável. Sentiu que não podia lidar com isso, que não tinha forças. E que talvez ele tivesse razão.
Mas, subitamente ela parou. Soltou as mãos dele e disse olhando nos seus olhos:
- Acabou Eduardo!
- Como é que...
- ACABOU! Agora eu respondo por mim e você vai responder pelos seus atos!
Ela seguiu sozinha, tremendo, achando que ia a qualquer momento desabar no chão. Tinha medo, estava apavorada, enquanto ele falava, falava e falava ao seu pé do ouvido. Ela continuava andando como se não estivesse sendo seguida por aquele som angustiante da voz dele, mas seguia firme. Pelo menos era o que aparentava. Foi seguindo enquanto aos poucos não se ouvia mais o som de nada e logo, estava sentada, na frente de uma mulher fardada com um distintivo no peito. Contou histórias. Histórias reais de uma dor que ela sentia e que a fazia se sentir um lixo. Agora, ela se sentia invencível.
