Essa é a minha voz em um grito ecoando pelo meu quarto enquanto me olho no espelho. Estou perplexa diante do que vejo e não consigo entender o que aconteceu comigo; no mínimo é assustador.
No dia anterior, horas antes de me deitar para dormir, li algo para minha irmã Luzi que deitada na cama ouvia com atenção a história que eu lhe contava. Mamãe e papai estavam com visitas importantes e como minha irmã e eu não temos idade para dormir tarde, nossos pais fazem questão de que estejamos na cama na hora por eles decidida. Para mim isso é uma tolice, pois, já tenho 10 anos e já sou bem crescida. Mamãe ou papai é quem lê para Luzi antes de dormir mas, nesse dia esta tarefa estava dada à mim.
- Anie, o que acontece agora? Luzi me perguntava com grande entusiasmo querendo saber como se concluía a historia.
- Agora, a pequena menina pega sua boneca mágica e vai para uma linda casa que fica na árvore no quintal de sua casa e...
Nesse momento Luzi me interrompeu e olhando desconfiada para as bonecas que ficam em diversos lugares do quarto me perguntou:
- Você acha que elas são mágicas?
- O que? As bonecas?
- Sim...
- Ah, sua boba! É claro que não!
- Por que não?
- Ora, porque são apenas bonecas.
Luzi bocejou; sinal de que o sono havia chegado e aos poucos ela foi apagando. Eu fechei o livro e bocejando fui para minha cama. Antes de mergulhar em travesseiros e lençóis, olhei para as bonecas ao lado e tentei imaginar se teriam ou não algo mágico. Nesse leve pensar, acabei adormecendo abraçada com minha boneca favorita, Susane.
Agora, diante do espelho estou assustada tentando entender o que se passa. Meus cabelos estão tão iluminados que refletem toda a luz que recebem; meus olhos grandes e azulados como sempre foram, me parecem de vidro e minha pele tem uma textura de plástico. Meus lábios estão tão corados, que combinam com meu par de bochechas rosas. Eu definitivamente e questionavelmente sou uma boneca! Algo tão meigo e doce veio a me assustar tanto quanto um monstro no armário. Ao menos o monstro do armário não sou eu. Busco entender o porque disso. Imagino que alguma das bonecas tenha ficado chateada com o meu ceticismo em relação à magia que nelas possa existir.
- Tudo bem, bonecas, a festa acabou! Me tragam de volta! Quero minha pele e tudo o que era antes.
Em resposta, um grande silêncio me incomoda. Penso em procurar meus pais, mas acredito que isso não seja o melhor a fazer. E se eles me venderem numa caixa com uma fitinha cor-de-rosa? Não, tenho que achar uma maneira de voltar a ser menina de volta.
- Por favor bonecas! Eu prometo que não vou mais desfazer as tranças dos cabelos de vocês se me trouxerem de volta! Prometo melhor, prometo que farei roupas para todas, mas têm que me fazer voltar a ser a garotinha que eu era.
Nesse momento ouço uma voz; uma voz familiar que ecoa livremente pelos meus ouvidos.
- Anie! Anie, querida!
Eu procuro em todas as direções, mas não consigo ver de onde vem aquela voz que repetidas vezes diz:
Anie, querida! É hora de acordar!
Abri meus olhos e encontro outro par de olhos esbugalhados que me fitam com carinho. Minha mãe me acaba de me acordar de um sonho.
Passei a ver as bonecas do meu quarto com outros olhos. Talvez fossem mágicas, não sei. O que sei é que mesmo que sejam adoráveis, lindas e maravilhosas, de boneca só quero o nome e a companhia.
