Céu oceano


Pés na areia morna misturada com a espuma que as ondas do mar traziam a cada meio minuto e olhos fixos no imenso azul palco das histórias das sereias que encantam os marinheiros. Bia compunha um cenário de boas memórias enquan1to sentia o vento de maresia levando seus cabelos a grudarem no rosto fazendo-a mover com as mãos a parte que a impedia de continuar fitando seus olhos naquela preciosidade da natureza criada por Deus. “O mar é lindo!” pensou. Tinha certeza que poderia passar horas ali; era só puxar uma cadeira, um guarda-sol, se lambuzar de protetor solar que não sentiria o tempo passar. Ouvir o som do mar e assistir toda a sua dança era uma das coisas ordinárias mais extraordinárias para ela e sua interação era muito mais contemplativa. Bia não sabia nadar; já havia se arriscado algumas vezes, mas mesmo tentando, a única coisa que fazia bem era boiar, algo que só se permitia em mar calmo, pois o agitado a afundaria. 
Após alguns minutos em pé sentindo a areia molhada envolvendo seus pés, deu alguns passos para frente deixando a água chegar acima dos joelhos. A água estava morninha, ideal. Um rápido mergulho para molhar os cabelos não faria mal e assim o fez. Mergulhando e deixando-se submergir sentiu águas acolherem o seu corpo em tamanha hospitalidade que quase sentiu uma nostalgia fetal, sensação que rapidamente se converteu na necessidade de retorno á superfície. Buscando um impulso para retornar percebeu não sentir mais o chão. Fez alguns movimentos para ver se o encontrava, mas nada conseguiu sentir além do mar agitando-se a redor dela. Sabia agora, que em instantes, se não o encontrasse, iria se afogar. Tudo aconteceu em segundos mas pareceu uma eternidade na cabeça dela. Se alguém olhasse na direção em que ela estava, veria os braços de alguém tentando voltar para a superfície, mas ninguém estava olhando. “Vou morrer e ninguém vai ver!” aterrorizou-lhe o pensamento. Alguns segundos depois, estava de fato, se afogando e quando começou desfalecer enquanto seu corpo fluía na direção que o mar decidia sentiu algo lhe tocar uma de suas mãos rapidamente. "Algum peixe?" pensou. Os sentidos estavam confusos e o corpo parecia afundar rapidamente até que mais uma vez, sentiu algo tocar em sua mão um toque que perdurou seguido de uma sensação de aumento de velocidade como se ela estivesse sendo puxada por algo ou alguém; não sabia ao certo para onde, mas seus sentidos diziam que estava indo para o fundo. Quando finalmente sentiu o corpo parar, abriu os olhos e se viu cercada de imensos corais e criaturas marinhas. Neste instante percebeu que não estava mais se afogando e podia até jurar que conseguia respirar ali embaixo. “Será que eu morri e o céu é o oceano?” Pensou. Lá embaixo parecia de fato ser um tipo de céu marinho. Jamais havia visto em qualquer documentário ou aula de ciências algo parecido. As mais diversas criaturas das mais diversas cores compunham um cenário lindo e curioso. Um cardume de pequenos peixinhos dourados estava bem próximo e ela tentou até tocar em um deles que saiu nadando para longe velozmente.
- Que lugar é esse? De fato, eu morri.
Mais uma vez sentiu algo tocar sua mão. Os olhos lentamente voltaram-se na direção para ver do que se tratava aquela sensação tão familiar que sentia e então ela viu uma outra mão ao segurar a sua. Ao guiar os olhos para o resto do corpo ao qual aquela mão pertencia deu um grito que gerou enormes bolhas de água agitadas em torno da sua cabeça. A criatura se tratava de uma sereia muito parecida com as quais estava habituada a ouvir falar nos contos. Tinha uma enorme cauda de peixe com escamas que brilhavam em diversas cores que eram influenciadas pela luz; brânquias na região do pescoço para poder respirar em baixo d’água; um cabelo quase que transparente parecia se misturar com as moléculas de água e um rosto quase humano, com exceção dos olhos que pareciam olhos de tubarão. A sereia sorriu sutilmente e quase que em seguida arrastou Bia novamente. A mesma sensação de velocidade percorrendo em seu corpo medida pela intensidade do atrito da água agora persistiu e sentia que estava indo rápido demais, mas não podia parar, pois a criatura estava sob o controle. Alguns minutos depois de ter percorrido longas distâncias, sentiu uma agitação profunda chegar. Águas estranhamente agitadas cada vez mais pareciam formar um tipo de força da natureza da qual qualquer um temeria enfrentar e percebeu que o destino que a criatura a levava tão velozmente era um grande redemoinho. Não deu nem tempo de pensar e logo estava dentro dele, girando e girando até que perdeu a consciência.
- Está com pulsação! Tragam uma toalha!
Ouviu vozes distantes e indistintas que aos poucos iam ganhando melhor sonoridade. Foi quando começou a abrir lentamente os olhos. Sentiu a luz do sol penetrar pelas retinas e ao sentir-se mais consciente, percebeu que alguém com um colete vermelho e laranja estava olhando fixamente para ela dizendo palavras que inicialmente ela não entendeu. 
- Está tudo bem moça! Você vai ficar bem! Consegue me ouvir? Está sentindo algo? Você se afogou, mas conseguimos resgatar você a tempo.
Ainda voltando em si e entendendo o que havia acontecido, pôde balançar lentamente a cabeça em afirmação. Sentia um pouco de frio, embora estivesse envolvida por uma toalha que gentilmente a cederam. A visão levemente embaçada ia aos poucos visualizando melhor as formas do que estava ao redor. 
Ela virou o rosto para aquela imensidão azul e pensou que talvez tivesse de fato morrido e que o céu seria como o fundo do mar. Lembrou de como era bonito e por um instante, olhando para ondas que quebravam em direção da areia, jurou ter visto o reflexo de uma cauda de escamas coloridas desaparecendo nas espumas das ondas.

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