Me nina


Menina rara
Se sente rasa
Nas profundezas que desconhece.
Ela para pra olhar pra dentro
Quando o miolo está esmagado.
Ela só queria que a casca dura de fora fosse dentro.
Ninguém percebeu que a cara fechada
É um reflexo involuntário
Das estações que foram frias.
Ninguém vê quando ela para sozinha dentro do quarto
Tentando enterrar os pensamentos.
Que fria, essa menina!
Ela quer uma lareira.
Menina cinza
Quer unicórnios
Quando o real é o arco-íris.
Ela anda de um jeito parado
Pra sentir o vento que traz no frescor
O cheiro da primavera que não vem.
Ela é uma flor.
Coitada da flor que não vê a primavera!
Menina pele
Ouviu histórias
Que os castelos trazem encantos
E que finais são sempre planos
Que ela não planejou.
Vai um abraço menina? Te falta.
Por que você sente tanto?
Parece um pedaço de carne viva
Que acabou de ser ferida;
Ninguém pode tocar.
Menina órfã
Perdeu os pais, perdeu os pais, todos os pais.
Pais até da estabilidade.
Pais da vontade de cantar.
Pais do que é vívido.
Pais das lágrimas boas.
Pais do sorriso mole.
Todos os pais.
Menina
Me nina
Me ninar

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