Ela e as tulipas


Ela era tão bela. Sim. A mais bela. Não porque tinha o mais lindo cabelo, os mais expressivos olhos, ou as mais perfeitas curvas. Ela só era a mais bela, porque foi isso que pensei quando a vi.
Eu não consegui me mover vendo ela caminhar na calçada levando na mão apenas uma sacolinha. Não sei o que tinha dentro, não me importava com isso.
Ela parou colocando as mãos em seu bolso a procura de algo e me fitou do outro lado da rua. Eu fiquei extasiado e apertei o mais forte que pude as flores que segurava quando vi que ela vinha em minha direção. Ela me olhava e olhava para as flores; e eu só me encantava a cada segundo com o brilho dos seus olhos e o mover dos seus cabelos. Ela estava linda. Aquele vestido que mostrava parte de suas pernas a deixava meiga, o que me fazia acreditar que pudesse ser uma fada vinda de outro mundo para me raptar.
- Quanto custa? Perguntou ela.
- Depende de qual. Disse num tom quase indo ao gaguejo.
Eram diversas flores. Das mais belas. Mas nenhuma se comparava a sua beleza.
- As tulipas...
A forma como ela pronunciou o nome das flores pareceu que de dentro dela exalava o perfume das tais.
- Uma custa $5 e o buquê...
- Certo! Só quero uma mesmo.
Ela estendeu sua mão me dando o dinheiro da flor e eu lhe dei a flor com um certo desgosto.
Não queria por uma flor em suas mãos da maneira como estava acontecendo. Gostaria de presenteá-la. Sim, de procurar no mais longínquo campo a mais bela flor e lhe brindar da forma mais carinhosa que pudesse presentear alguém.
Ela não durou muito na minha frente, mas antes de sair me agradeceu com o mais belo sorriso que pude ver desbotar no rosto de alguém. Ela se foi com a flor na mão.
Toda semana ela vinha, comprava um flor, me mostrava um sorriso e ia embora.
Eu, sempre ficava bailando no som da sua voz e me iluminava no brilho dos seus olhos, mas não deixava que qualquer coisa que eu fizesse pudesse lhe entregar o que acontecia dentro de mim ao vê-la.
Foram dias, semanas, meses. E um dia ela não veio.
Um homem alto e moreno apereceu e levou o mais caro buquê com as mais belas flores.
- Gostaria de algum cartão? Disse eu.
- Sim, por favor! É para um dama. Se nome é Alícia.
Coloquei o cartão no meio das flores e lhe entreguei.
Ele atravessou a rua indo em direção de uma mulher que estava sentada numa das mesas de um restaurante que ficava do outro lado. Era ela. A mais bela de todas. Agora eu sabia o seu nome, mas também sabia que ela tinha um alguém. Um alguém ao qual daria o mundo para estar em seu lugar. Não quis chorar, mas acho que até as flores estavam mais murchas naquele dia.
Ele foi embora e ela ficou segurando as flores. Não durou muito para vir em minha direção. Parou diante mim e sorriu. Não sei o que fiz, mas acho que ela percebeu algo em meu olhar.
- As flores são lindas não são? Ela disse.
- Sim, muito lindas.
- Cada uma com sua beleza, sua essência. Elas são como as pessoas. Cada uma é única. Até mesmo as da mesma espécie.
- É verdade... Você tem alguma favorita? Ah, acho que são as tulipas né? Disse isso, porque ela sempre vinha comprar uma.
- Sim, adoro tulipas. Elas me lembram de algo.
Eu fitei as tulipas e peguei a mais bela de todas. Exalei o seu perfume e logo estendi a mão para dar a flor a ela. Ela sorriu.
- Obrigado...
- Você gosta tanto de tulipas... porque o cavalheiro que outrora estava com a senhorita não a presenteou com elas?
- Meu irmão nunca se lembrou bem das minha preferências...
- Seu irmão?
- Sim...
Naquele momento meu coração palpitou aceleradamente. Mas do que tudo queria lhe dizer o que sentia. Mas não tive coragem. Ela olhou pra mim e sorriu de novo, mas desta vez foi um sorriso especial. E ele vinha com essas palavras:
- Amanhã volto para comprar mais uma tulipa.
Eu sorri enquanto ela ia caminhando na direção que sempre tomava. Eu não hesitei em lhe perguntar:
- O que as tulipas lhes lembram para que sempre venha buscá-las sempre?
Ela me olhou com os olhos mais meigos e disse:
- Elas me lembram de você.
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